O QUE O MERCADO E OS BANCOS QUEREM.

Paul Krugman é um economista, um dos primeiros que, modernamente, se insurgiu contra o neoliberalismo.

Foi Paul Krugman quem previu o primeiro ataque especulativo que o Brasil sofreria, no governo Fernando Henrique Cardoso.

A previsão aconteceu, quando observou o movimento de um cidadão de dupla nacionalidade (brasileira e americana), chamado Armindo Fraga, que foi diretor-gerente da Soros Fund Management LLC em Nova Iorque, que em companhia de outro cidadão,  um empresário e homem de negócios húngaro-americano, George Soros, compravam papeis da dívida pública brasileira nos mercados americanos e europeus.

De posse dos papéis, Armindo Fraga e George Soros, em setembro de 1997, aplicaram o Golpe Especulativo, levando 70 bilhões de dólares da economia brasileira.

Nossa economia foi para o ralo, e o país teve sua primeira falência decretada.

A esse golpe, seguiram-se mais dois, um em 1999 e outro em 2001.

Lembrar que Armindo Fraga é um dos principais articuladores econômicos do candidato a presidente da república, Aécio Neves, que tem se destacado em sua campanha, criticando o que ele chama de “inflação descontrolada”.

Além de Aécio Neves, Marina Silva também tem elevado o tom sobre o que se propala de descontrole da inflação.

A bem da informação, diga-se de passagem, que a inflação brasileira não está nem próxima ao patamar que atingiu no governo do Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando atingiu 12,5 pontos percentuais, exigindo taxas de juros de 45% a.a para contê-la. Solução imposta por Armindo Fraga, cujo tema é sua “menina dos olhos”. 

Outros economistas de viés neoliberais também preveem o inferno com as taxas de inflações, além, é claro, dos comentaristas econômicos dos telejornais, radiodifusão,jornais e revistas, ligados à grande mídia, de tendências rentistas, com raras exceções.

O artigo de Paul Krugman, que republicamos abaixo, descreve muito bem o terrorismo que se pratica, ao se usar a inflação como pano de fundo para os objetivos de grupos financeiros, cujo principal lucro está encravado no rentismo (política de juros e investimentos).

Como bem frisou o jornalista Fernando Brito, do Blog Tijolinho, que publicou este artigo, para se comparar aos ataques dos brasileiros à inflação, é só trocar os nomes, que se encaixa perfeitamente nos nossos comentaristas e economistas. Coisa que o farei em negrito. 

Como neoliberal não tem alma nem coração, tem cofre. Inflação alta requer uma contra partida de juros altos. É isso que o mercado quer.

Obs: A primeira frase de Paul Krugman se refere ao que ele leu em um Blog. Lá as´pessoas cultas leem Blogs!

 

 

O culto à inflação

Paul Krugman

Como eu queria ter dito a mesma coisa! No começo da semana, Jesse Eisinger, da ProPublica, em post no blog DealBook, do “New York Times”, comparou as pessoas que preveem uma disparada da inflação aos “verdadeiros crentes cuja fé em um apocalipse profetizado persiste mesmo depois que este não se concretiza”. Verdade.

Aqueles que fazem previsões econômicas erram muitas vezes. Eu também! Se um economista jamais faz uma previsão incorreta, isso significa que não está assumindo os riscos que deveria. Mas é menos comum que supostos especialistas continuem a fazer a mesma previsão errada ano após ano, jamais admitindo ou tentando explicar seus passados erros. E o mais notável é que esses sabichões, sempre errados mas jamais em dúvida, continuam a exercer grande influência pública e política.

Há alguma coisa acontecendo aqui. E não está claro exatamente o quê. Mas como sabem meus leitores regulares, tenho tentado descobrir, porque considero importante compreender a persistência e o poder do culto à inflação.

De quem estamos falando? Não só dos apresentadores gritalhões da CNBC (GLOBO, GLOBO NEWS, CBN), ainda que eles certamente sejam parte do problema. Rick Santelli (Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo), famoso por sua diatribe em defesa do Tea Party em 2009, passou boa parte daquele ano gritando que a inflação descontrolada estava por chegar.

Não estava, mas sua linha jamais mudou. Dois meses atrás, ele disse aos seus telespectadores que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) (BC – Banco Central brasileiro) estava se “preparando para a hiperinflação”.

É fácil descartar figuras como Santelli, alegando que elas basicamente são parte do mundo do entretenimento. Mas muitos investidores não parecem concordar com isso. Ouvi de administradores de fundos – ou seja, de investidores profissionais – que a calmaria da inflação os surpreendia, porque “todos os especialistas” haviam previsto uma alta.

E não é fácil descartar o fenômeno do apego obsessivo a uma doutrina econômica fracassada quando você o vê em importantes figuras políticas. Em 2009, o deputado federal Paul Ryan(Senador e presidenciável Aécio Neves, Marina Silva, senador Aloysio Nunes, Álvaro Dias, Ronaldo Caiado, Alckmin) alertou sobre a “sombra da inflação que pende sobre nós”. Ele reconsiderou sua posição quando a inflação continuou baixa? Não, continuou alertando, ano após ano, sobre a iminente “degradação” do dólar.

E há mais: você encontra a mesma história ao estilo “dia da marmota” ao estudar os pronunciamentos de economistas aparentemente respeitáveis. Em maio de 2009, Allan Meltzer,( economista monetário conhecido e historiador do Federal Reserve, escreveu um artigo de opinião para o “New York Times” no qual advertia que uma alta acentuada na inflação estava iminente a não ser que o Fed mudasse de rumo.

Ao longo dos cinco anos que se seguiram, o indicador de preços preferencial de Meltzer subiu em ritmo anualizado de apenas 1,6%, e sua resposta surgiu na forma de um novo artigo de opinião, este publicado pelo “Wall Street Journal” e intitulado “como o Fed alimenta a inflação”.

Assim, o que está acontecendo quanto a isso?

Já escrevi antes sobre como os ricos tendem a se opor à política monetária frouxa, percebendo-a como inimiga de seus interesses. Mas isso não explica os atrativos continuados de profetas cujas profecias sempre fracassam.

Parte do apelo é claramente político: existe um motivo para a gritaria de Santelli sobre a inflação e sobre o dinheiro que o presidente Obama dá aos “perdedores”, e para que Ryan alerte sobre uma moeda degradada e um governo que redistribui “dos que fazem para os que aproveitam”.

Os adeptos do culto à inflação quase sempre vinculam as políticas do Fed a queixas sobre os gastos do governo. Estão completamente errados quanto aos detalhes – não, o Fed não está imprimindo dinheiro para cobrir o déficit orçamentário -, mas é verdade que governos cujas dívidas são denominadas em uma moeda que eles podem emitir têm mais flexibilidade, e portanto mais capacidade de manter a assistência às pessoas que dela necessitem, do que governos que não contam com essa capacidade.

E a raiva contra os “aproveitadores” – uma raiva fortemente vinculada a divisões culturais e étnicas – é profunda. Muita gente, portanto, sente afinidade para com os homens que gritam sobre a disparada iminente da inflação; Santelli é o tipo de cara de que essas pessoas gostam.

Em um sentido importante, eu argumentaria, o culto à inflação é um exemplo da “fraude de afinidade” crucial para muitas trapaças, nas quais os investidores confiam no trapaceiro porque sentem que ele é parte de sua tribo. Nesse caso, os trapaceiros podem estar se trapaceando tanto quanto trapaceiam aos seus seguidores, mas isso pouco importa.

Mas e quando aos economistas que aderiram ao culto? Eles são todos conservadores, mas não são também profissionais que deveriam colocar as provas concretas acima da conveniência política? Aparentemente não.

A persistência do culto à inflação, portanto, é um indicador de até que ponto nossa sociedade se polarizou, de como tudo se tornou político, mesmo entre as pessoas que supostamente deveriam se colocar acima dessas coisas. E essa realidade, ao contrário do suposto risco de uma inflação descontrolada, é algo que deveria nos assustar.

Paul Krugman,professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade Princeton. Em 2008, recebeu o Prémio Nobel de Economia, e colunista do The New York Times

 (tradução de Paulo Migliaccio, na Folha)

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