NEOLIBERALISMO – O SOFRIMENTO DESNECESSÁRIO

PRIVILEGIANDO BANCOS E DESTRUINDO A SOCIEDADE.

Lições de uma doutrina economico/social, que faliu países, destruiu pessoas, famílias, levou milhões de seres humanos ao desemprego e desespero, enquanto privilegiava bancos e investidores em detrimento da sociedade.

O caminho que não foi seguido

Paul Krugman
Em Reykjavik (Islândia)

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008

Os mercados financeiros estão comemorando o acordo que emergiu de Bruxelas no início da manhã da última quinta-feira (27). De fato, tendo em vista o que poderia ter acontecido – uma incapacidade de concordar quanto a qualquer coisa –, o fato de os líderes europeus terem concordado quanto a algo, por mais vagos que sejam os detalhes e por mais inadequados que o acordo possa se revelar, é sem dúvida positivo.

Mas vale a pena examinar o quadro mais amplo, ou seja, o fracasso retumbante de uma doutrina econômica – uma doutrina que provocou danos enormes tanto à Europa quanto aos Estados Unidos.

A doutrina à que me refiro consiste na afirmação de que, após uma crise financeira, os bancos precisam ser resgatados, mas a população tem que pagar o preço do resgate. Assim, a crise provocada pela desregulação transforma-se em um motivo para que haja um deslocamento ainda maior para a direita; um período de desemprego em massa, em vez de estimular a adoção de medidas governamentais para a criação de empregos, transforma-se em uma era de austeridade, na qual gastos governamentais e programas sociais são cortados.

Essa doutrina foi defendida com alegações de que não havia outra alternativa – que tanto os pacotes de resgate financeiro quanto os cortes de gastos eram necessários para satisfazer os mercados financeiros – e com a afirmação de que a austeridade fiscal na verdade criaria empregos. A ideia era que cortes de gastos fariam com que os consumidores e os empresários se sentissem mais confiantes. E essa confiança supostamente estimularia gastos privados, o que mais do que compensaria os efeitos depressivos dos cortes governamentais.

Alguns economistas não estão convencidos. Um crítico feroz afirmou que as alegações relativas aos efeitos expansivos da austeridade equivaliam à crença na “fada da confiança”. O.k., esse crítico fui eu.

Mas, apesar disso, essa doutrina tem sido extremamente influente. A austeridade expansiva, em particular, tem sido defendida tanto pelos republicanos do congresso dos Estados Unidos quanto pelo Banco Central Europeu, que no ano passado rogou aos governos europeus – e não apenas àqueles que enfrentavam problemas fiscais – que implementassem uma “consolidação fiscal”.

E, no ano passado, quando David Cameron tornou-se o primeiro-ministro do Reino Unido, ele instituiu imediatamente um programa de cortes de gastos, acreditando que isso na verdade estimularia a economia – uma decisão que foi recebida com elogios afetuosos por vários especialistas dos Estados Unidos.

Agora, porém, os resultados são visíveis, e o quadro não é nada bonito. A Grécia foi empurrada pelas suas medidas de austeridade para um buraco econômico cada vez mais profundo – e esse buraco, e não a falta de esforços por parte do governo grego, foi o motivo pelo qual um relatório sigiloso enviado a líderes europeus concluiu na semana passada que o programa atualmente aplicado na Grécia não tem como dar certo. A economia britânica foi paralisada devido ao impacto da austeridade, e a confiança de empresários e consumidores despencou ao invés de disparar.

Talvez o fato mais revelador seja aquilo que atualmente é apresentando com uma história de sucesso. Alguns meses atrás, vários analistas passaram a elogiar as façanhas da Letônia, que, após uma recessão terrível, conseguiu, não obstante, reduzir o seu déficit orçamentário e convencer os mercados de que o país contava com bons fundamentos fiscais. O caso da Letônia foi, de fato, impressionante, mas o custo foi um índice de desemprego de 16% e uma economia que, embora esteja finalmente crescendo, ainda está 18% menor do que era antes da crise.

Assim, resgatar os bancos enquanto se pune os trabalhadores não se constitui na verdade em uma receita para prosperidade. Mas haveria alguma alternativa? Bem, é por isso que eu estou na Islândia, participando de uma conferência sobre o país que fez algo de diferente.

Aqueles que têm lido notícias sobre a crise financeira, ou assistido a filmes como o excelente “Inside Job”, sabem que a Islândia deveria ser considerada a suprema história de desastre econômico: os seus banqueiros descontrolados sobrecarregaram o país com dívidas enormes e aparentemente deixaram a nação em uma situação irremediável.

Mas algo de engraçado aconteceu a caminho do apocalipse financeiro: o próprio desespero da Islândia fez com que um comportamento convencional se tornasse impossível, liberando assim o país para romper com as regras. Quando todo mundo resgatou os bancos e obrigou a população a pagar o preço, a Islândia deixou os bancos quebrarem e de fato expandiu a sua rede de previdência social. Quando todos os demais se fixaram na tentativa de acalmar os investidores internacionais, a Islândia impôs controles temporários sobre a movimentação de capital a fim de obter espaço de manobra.

Assim, como é que o país está se saindo? A Islândia não evitou um grande dano econômico e tampouco uma queda significativa do padrão de vida. Mas ela conseguiu limitar tanto o aumento do desemprego quanto o sofrimento da parcela mais vulnerável da população; a rede de previdência social sobreviveu intacta, assim como a decência básica da sua sociedade. “As coisas poderiam ter sido bem piores” pode não ser o mais animador dos slogans, mas quando todo mundo esperava um desastre total, a frase equivale a um triunfo de política econômica.

E há nisso uma lição para todos nós: o sofrimento pelo qual tantos dos nossos cidadãos estão passando é desnecessário. Se este momento tem sido marcado por um sofrimento incrível e de uma brutalização da nossa sociedade, isso foi uma escolha. A situação não teria e não tem que ser essa.

(Grifos de Martins Andrade)

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