A MÍDIA, AS PIRANHAS E O STF.

Um cardume de piranhas famintas inicia o ataque  comendo a ponta do rabo do outro peixe. Com isso, o grupo diminui a velocidade de fuga de sua presa. Depois, as piranhas comem uma das nadadeiras laterais, obrigando a vítima a rodar sobre si mesma.

Um grupo seleto de brasileiros, assim como as piranhas, transformou a democracia numa presa e a faz rodar sobre si mesma, ao sabor dos aguados olhares da justiça.

Já escrevi, neste recanto perdido, vários artigos sobre o papel da imprensa, aliás, sobre empresas que publicam e comercializam jornais e revistas, e que também são donas de outros produtos como emissoras de rádio e televisão.

Os donos dessas empresas (empresas de comunicação) se consideram acima das leis, sobretudo quando usam os produtos dessas empresas (rádio, jornal, revista, televisão) para praticar o assassinato de reputação alheia, fazer proselitismo político ou como objeto de achaque para resultados financeiros, esquecendo a informação. 

A constituição brasileira proíbe que certos grupos ou pessoas sejam detentoras de produtos de informações. Entre essas pessoas ou grupos, encontram-se os políticos.

O Supremo Tribunal Federal, da Republica Federativa do Brasil, que há pouco tempo permitiu que esses produtos de empresarios achincalhem autoridades constituidas, é cego para os preceitos constitucionais e não vê, ou não quer ver, quem está ou não fora da lei ao possuir esse tipo de empresa.

Logo o STF, o intérprete da constituição para leigos e não leigos em direito constitucional.

Comos e sabe, o STF acabou com a lei de imprensa e escancarou a porta para que empresários, através desses produtos, possam utilizá-los para os mais diversos usos, sem cerimonia.

Assim, o contribuinte brasileiro presencia empresários, através de seus produtos (rádio, jornal,televisão, revistas), se autodenominar de fiscal do povo. E mais: segundo afirmação da presidente da CNJ, de oposição ás autoridades eleitas pelo voto soberano e democratico da população, sem mandato para isso, uma vez que nunca receberam nenhum voto para tais práticas.

É sintomático que a maior corte judicial de um país em gozo de pleno direito , permita que políticos possuam tais empresas, quando sua constituição os proíbe. 

Fica fácil supor quem vai sair rindo do STF, num presumido julgamento onde estejam envolvidos: o dono de fármacia, que vendeu um remédio tarja preta sem receita médica; o dono de posto de gasolina de beira de estrada, que vendeu uma latinha de cerveja a um caminhonheiro, e um dono de jornal que destruiu moralmente um ilibado cidadão.

A lei proibe vender remédio tarja preta sem a receita médica. Igualmente a lei seca proíbe a venda de bebidas alcóolicas nas estradas do Brasil.

Os três são empresários, mas rindo estará o empresário dono do jornal. Seu produto é livre para fazer o que bem entender.

Quem foi indicado por políticos para os altos postos que ocupam, os ministros do STF, relativamente aos donos desses produtos, sobretudo os políticos, agem com cautela e não querem ser a presa das piranhas. Devem favores.

Nessa água eles não entram. Preservam o rabo.

 

 

À propósito, reproduzo para os amigos do Blog o contundente artigo de Fábio Comparato

PARA QUE SERVE, MESMO, UMA CONSTITUIÇÃO ?


Fábio Konder Comparato

Em todas as religiões, o ingresso de neófitos exige um período de instrução mais ou menos longa do candidato sobre os dogmas da fé. No período da minha infância (e já lá se vão várias dezenas de anos), toda criança católica, para receber a primeira comunhão, devia saber de cor o catecismo.

Penso que hoje, analogamente, nenhum agente público, sobretudo do alto escalão estatal, deveria tomar posse do seu cargo, sem comprovar um mínimo conhecimento daquele conjunto de verdades que, embora não sobrenaturais, situam-se no mais elevado escalão ético: o sistema de direitos humanos.

Receio que o atual ministro das comunicações, Paulo Bernardo, não tenha sido instruído nos rudimentos dessa matéria, pois o seu conhecimento dos direitos humanos, para dizer o mínimo, deixa muito a desejar.

Em entrevista realizada ao vivo na TV Brasil, sua excelência reconheceu que o setor de comunicação social acha-se muito concentrado no Brasil, e que é preciso desconcentrá-lo. “Mas não vamos fazer isso por lei”, advertiu. “Não dá para fazer uma lei que diga que vai desconcentrar, até porque não haveria mecanismos para isso.”

O recado foi assim dado. Ao que parece, o governo da presidente Dilma Roussef considera sem importância as ações de inconstitucionalidade por omissão, já propostas no Supremo Tribunal Federal, para exigir que o Congresso Nacional vote uma legislação regulamentadora de vários dispositivos constitucionais sobre comunicação social, ações essas que tenho a honra de patrocinar como advogado.

Vejo-me, portanto, com grande constrangimento, obrigado a expor ao ministro e, quiçá, à própria presidente que o escolheu, o b-a-ba dos direitos humanos.

É preciso começar pela distinção básica entre direitos humanos, deveres humanos e garantias fundamentais.

Os direitos humanos são inatos a todos os componentes da espécie humana, porque dizem respeito à sua dignidade de pessoas; isto é, dos únicos seres da biosfera dotados de razão e consciência, como enfatiza o artigo primeiro da Declaração Universal de 1948. Por isso mesmo, tais direitos não são criados pela autoridade estatal, mas por ela simplesmente reconhecidos. Em doutrina, faz-se, em conseqüência, a distinção entre direitos humanos e direitos fundamentais. Estes últimos são os direitos humanos reconhecidos nas Constituições ou nos tratados internacionais.

Em estrita correspondência com os direitos humanos, existem os deveres humanos. Para ilustração, basta lembrar que todos têm direito à vida, direito esse que, em conseqüência, deve ser por todos respeitado. Os Estados, por não serem pessoas humanas, não possuem obviamente direitos humanos. Não obstante, todos os Estados têm deveres humanos, quando mais não seja o de criar os meios ou instrumentos legais de proteção dos direitos, vale dizer, de estabelecer as garantias fundamentais.

Ao contrário dos direitos e dos deveres humanos, as garantias somente existem quando criadas e reguladas pela autoridade competente; ou seja, os Estados, no plano nacional ou internacional, e as organizações internacionais, como a ONU e a OEA. Daí porque tais garantias são ditas fundamentais e não simplesmente humanas, como os direitos.

Pois bem, ministro Paulo Bernardo, a Constituição Brasileira reconhece o direito à comunicação como fundamental, no art. 5°, incisos IV, IX e XIV, e no art. 220 caput, os quais me abstenho de transcrever, mas cuja leitura me permito recomendar-lhe vivamente.

Mas o que significa, afinal, comunicação?

Atentemos para a semântica. O sentido original e básico de comunicar é de pôr em comum. A comunicação, por conseguinte, não é absolutamente aquilo que fazem os nossos grandes veículos de imprensa, rádio e televisão; a saber, a difusão em mão única de informações e comentários, por eles arbitrariamente escolhidos, sem admitir réplica ou indagação por parte do público a quem são dirigidos.

Tecnicamente, o direito à comunicação compreende a liberdade de pôr em comum, vale dizer, de dar a público a expressão de quaisquer opiniões, a liberdade de criação artística ou científica, e a liberdade de informação nos dois sentidos: o de informar e o de ser informado.

Para cumprimento do dever fundamental do Estado Brasileiro de respeitar o direito à comunicação, a Constituição Federal em vigor estabeleceu um certo número de garantias fundamentais; as quais, frise-se, só se tornam praticáveis, quando adequadamente reguladas em lei.

Exemplo: “É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem” (Constituição, art. 5°, inciso V). Como pode ser exercida essa garantia de proteção à identidade ou à honra individual? Somente em juízo, ou também fora dele? Há ou não há limites de extensão ou duração da resposta? Recebido o pedido extrajudicial, em quanto tempo deve o veículo de comunicação social dar a público a resposta do ofendido? Esta deve ser publicada na mesma seção do jornal e no mesmo programa de rádio ou televisão, em que foi divulgada a ofensa, ou a informação incorreta? Tudo isso, senhor ministro, somente a lei pode e deve estabelecer.


Outro exemplo, para retomar o comentário do ministro Paulo Bernardo, acima transcrito. A Constituição proíbe o monopólio e o oligopólio, diretos ou indiretos, no setor de comunicação social (art. 220, § 5°). Quem deve definir a existência de monopólio ou oligopólio, de forma direta ou indireta, no mercado? O ministro das comunicações? A sua chefe, a presidente da República? O deus onipotente dos tempos modernos, o Mercado? Ou deveremos, talvez, deixar essa definição para os preclaros ministros do Supremo Tribunal Federal que, por sinal, não tiveram constrangimento algum em considerar revogada a lei de imprensa, que regulamentava o direito de resposta?

Quem sabe, o ministro Paulo Bernardo já ouviu a citação do art. 5°, inciso II, da Constituição Federal: “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.

Ora, há mais de duas décadas, exatamente há 22 anos e três meses, aguardamos todos que o Congresso Nacional cumpra o seu dever fundamental de legislar, definindo as condições em que será reconhecida a existência de monopólio ou oligopólio, no campo da comunicação social. Nesse tempo todo, o espírito empresarial não ficou passivo, a esperar, apalermado, que as autoridades da República se decidissem, enfim, a cumprir a Constituição. Só no setor de televisão, a Globo passou a controlar 342 empresas; a SBT, 195; a Bandeirantes, 166; e a Record, 142.

Pois bem, senhor ministro Paulo Bernardo, ainda que mal lhe pergunte: – Para que serve, mesmo, uma Constituição?

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