JORNAL, UM NEGÓCIO

OU FISCAL DA SOCIEDADE?

Quem freqüenta nosso blog tem notado uma certa repetição sobre a função do jornalista e da imprensa em geral, e em particular, o jornal impresso.

Ultimamente os jornais têm tomado posições políticas, que incomodam tanto aos políticos, alvos de suas criticas e aleivosias, como ao cidadão comum.

A contextualização do jornalismo na conjuntura político/social de um país não requer grandes comprometimentos nem comportamentos éticos.

Cria-se o negócio, escolhe-se o alvo ou lado, ou ainda o objetivo a se atingir e segue-se em frente, imune a tudo e a todos, vilipendiando pessoas, destruindo reputações, criando monstruosidades e ameaçando cidadãos eleitos com votos do povo, desde que eles não compactuem com os interesses do jornal. Geralmente financeiros.

Um exemplo disso aconteceu em São Paulo, no inicio da gestão do governador José Serra. Ele adquiriu milhões de reais em assinaturas da revista Veja e outras do grupo Abril. Com tamanho volume de exemplares obrigou-se a enviar a revista para a residências de professores, funcionários, etc.

A contrapartida veio na campanha eleitoral, com apoio declarado ao candidato do PSDB, coincidentemente, o mesmo que lhe havia comprado as assinaturas sem licitação.

Gestores públicos são obrigados, sob ameaça, de comprarem assinaturas de determinado jornal, sob pena de ver sua gestão no olho da rua.

De modo contrário, alguns têm também sua gestão posta sob censura, cotidianamente, porque é interesse do jornal agradar a outro grupo político.

Tudo isso sob o olhar da população, que não delegou a este ou aquele jornal poderes para exercer fiscalização para nada.

Mas o jornal se autodetermina como fiscal, quando na verdade o que há por trás de tudo são interesses financeiros.

Uma sociedade não pode permitir que uma empresa de negócios seja seu fiscal.

Nunca esquecer que jornal é uma atividade econômica como outra qualquer. Contudo, desde o advento da internet o veículo tem descido ladeira abaixo em vendas nas bancas e assinaturas.

Então, qual a fonte financeira para manter o jornal?

A fonte financeira vem de quem paga ao jornal, ou o próprio dono, para publicar as idiossincrasias diárias contra quem não lhes pagas, ressalvados as raríssimas exceções.

O jornal é um negócio!

A esse respeito, anexamos o excelente artigo de Paulo Nogueira, publicado originalmente no Blog: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ e republicado em Luis Nassif: http://www.brasilianas.org/blog/luisnassif/o-negocio-da-midia-e-a-sociedade-por-paulo-nogueira#more

O negócio da mídia e a sociedade, por Paulo Nogueira

Enviado por luisnassif, sab, 06/11/2010 – 09:52

Por Otto

Não consegui abrir o “Fora de pauta”. Vai aqui.

QUEM FISCALIZA O FISCAL?

Paulo Nogueira, do blog Diário do centro do mundo

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/

Há, na Inglaterra, uma guerra fria entre os políticos e os jornalistas que cobrem política. Os políticos entendem que os jornalistas não receberam mandato da sociedade – votos, em suma – que lhes dê legimitidade nos comentários ou nos debates.

Em seu bom livro sobre jornalismo, My Trade, ou Meu Ofício, Andrew Marr,  editor de política da BBC, detém-se longamente nesta discussão. Há alguma coisa nela, feitas as devidas adaptações, que vale para o Brasil.

Quais os limites do jornalismo e dos jornalistas?

Vejamos a Folha de S. Paulo, por exemplo. Ela procura se colocar, em editoriais e em publicidade, como uma espécie de fiscal sagrado dos governos. Tudo bem. Mas é preciso não perder de vista que ela não recebeu essa incumbência da sociedade.

o foi votada. Não foi eleita.

Fora isso, existe fiscal que não é fiscalizado?

Jornalismo é, como todos os outros, um negócio. Em geral, quem investe em jornalismo não está atrás de dinheiro. Os lucros não costumam ser grandes. O que o jornalismo dá é prestígio, influência. Empresários interessados em recompensas mais palpáveis fazem suas apostas em outras áreas.  No começo da década de 2000, quando a internet já desaconselhava investimentos em papel no Reino Unido, um empresário russo comprou o jornal inglês The Evening Standard, em grave crise financeira, examente por isso: para ganhar respeitabilidade.

É um jogo antigo.

Na biografia semioficial de Octavio Frias de Oliveira, está publicado um episódio revelador. Nabantino, o antigo dono da Folha, estava desencantado porque se julgara traído pelos jornalistas que fizeram a greve de 1961. (Meu pai era um deles.) Decidiu vender o jornal. Um amigo comum de Nabantino e Frias sugeriu que ele comprasse. “Dinheiro você já tem da granja”, ele disse. “O jornal vai dar prestígio a você.” Na biografia, a coleção de fotos de Frias ao lado de personalidades mostra que o objetivo foi completamente alcançado. Um granjeiro não estaria em nenhuma daquelas fotos.

Sendo um negócio, o jornalismo não está acima do bem e do mal. É natural que prevaleçam, nele, as razões de empresa.  Essas razões podem coincidir com as razões nacionais – ou não. Observe o mais carismático – não necessariamente o melhor ou mais escrupuloso – empresário de jornalismo da história do Brasil, Roberto Marinho, da Globo. Quem garante que o que era melhor para ele era o melhor para o país? Roberto Marinho era tão magnânimo a ponto de pôr os interesses nacionais à frente dos pessoais?

Como a sociedade não elegeu empresas jornalísticas, seus donos não têm que dar satisfação a ninguém sobre coisas como o uso dão ao dinheiro que retiram. Se decidem vender o negócio, nada os impede. Essa é a parte boa de você não ter um vínculo ou uma delegação direta da sociedade. Não existem amarras burocráticas para seus movimentos. Mas você não pode ficar com a parte boa e dispensar a outra – a que não lhe garante tratamento privilegiado apenas por ser da imprensa. Liberdade de expressão não é um conceito que tenha valor em si e sim dentro de um contexto. Na Inglaterra, você não pode publicar um artigo que exalte o terror islâmico, por exemplo. Mesmo no célebre Speaker’s Corner – o canto no Hyde Park tradicional por abrigar qualquer tipo de manifestação de gente que suba num caixote ou numa escada – se você louvar Bin Laden é preso assim que pisar no chão.

No Reino Unido, a mídia é acompanhada, como toda indústria. Há, por exemplo, um órgão regulador independente para a tevê e para o rádio, o Ofcom. A independência é vital. Se o Ofcom fosse manipulado por interesses políticos, seria um problema e não uma solução. Também não prestaria para nada se fosse controlado pelas próprias emissoras. Em poucas atividades há tanta autocomplacência como na auto-regulamentação. Outro fator relevante no acompanhamento da mídia entre os britânicos é a existência de grupos de pressão como o Mediawatcher, uma associação de espectadores que esperneia sempre que acha oportuno.

É curioso que não haja nada desse tipo no Brasil. As pressões do público são desogarnizadas, como vimos, por exemplo, no movimento que sugeriu a Galvão Bueno calar a boca.

Jornalismo é um negócio como todo outro. Apenas, em vez de vender sabão, você vende notícias e análises. Isso dá prestígio – mas não pode dar imunidade. Um modelo de acompanhamento semelhante ao britânico – em que não exista manipulação política do governo, como acontece em ditaduras – seria um avanço para o Brasil. Não se pode confundir acompanhamento com censura: os brasileiros ainda têm clara na memória a agressão ao noticiário sofrida na ditadura militar, e sabem o que aconteceu em países como a Rússia. Mas nada disso pode servir de impedimento para uma discussão adulta que eventualmente conduza da auto-regulamentação para uma regulamentação independente nos moldes da britânica.

Há dois grandes desafios aí. Um é vencer a resistência da mídia em sair da área de conforto da auto-regulamentação. Devem prevalecer aí não os interesses particulares e sim os do país. O outro é neutralizar a tentação dos governo de tomar a si um acompanhamento que só faz sentido se for genuinamente independente.

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