A DITADURA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÕES

 

JÁ NÃO HÁ MAIS NENHUM RASTRO DE HONESTIDADE NOS MEIOS DE COMUNICAÇÕES BRASILEIROS.

O que se pode esperar dos meios de comunicações de um país, que extrapolam verdades, numa tentativa de garantir aos seus aliados, vantagens que se vê perdidas no seio da população?

Que lição um povo pode tirar de seus veículos de comunicações, que após cada matéria divulgada, uma enxurrada de desmentidos e correções parte de todos os quadrantes brasileiros para corrigí-la?

E eles não divulgam!

Que tradição funesta é esta que agora corre nas veias de nossa mídia?

O poeta português José Régio, em seu Cantico Negro, se referindo às velhas tradições transmitidas às gerações mais novas, cravou em um de seus versos:

“CORRE NAS VOSSAS VEIAS SANGUE VELHO DE VOSSOS AVÓS…”

Será essa a premissa que ronda as redações dos meios de comunicações brasileiros?

Essa prática tem muito a ver com o resquício de escravidão que entornou o caldo da história brasileira em mais de 350 anos!

Tem, sim!

O Brasil, no olhar da nossa mídia, não é mais do que uma grande senzala, vista das redações, transformadas em varandões de fazenda, e observada pelos senhores de engenho, agora dono dos meios de comunidações.

Para onde quer ir essa turba ignota, devem estar se perguntando os senhores que pensam serem os donos dessa imensa senzala chamada Brasil.

Tentam enganar o povo, aterrorizandando-o com imputações, hoje, no mínimo jocosas.

Há algum tempo, os bisavós dessa grande mídia vociferavam nos pátios das grandes fazendas, chicote à mão: NÃO COMAM MANGA COM LEITE, FAZ MAL!

Falavam assim, mentindo para os escravos, para que não tomassem o precioso leite nem comesse as frutas produzidas nos quintais deles.

Hoje, seus descendentes vociferam nas páginas de seus jornais, idiossincrasias discriminativas, que bem lembra a advertência da manga com leite: VOTE EM SICRANO, FULANO FAZ MAL!

O Sicrano indicado, geralmente, comporta-se como um capataz de fazenda: tem o chicote mas só açoita a quem o senhor do engenho quer.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX  —-  XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Complementado nossa opinião sobre a mídia brasileira, trago para os frequentadores do Blog MARTINS ANDRADE E VOCÊ, mais um belíssimo trabalho do jornalista LUIZ CARLOS AZENHA, de seu Blog Vi o Mundo

E em seguida, complemento com o terceiro artigo desse grande jornalista, que discorre sobre o momento da atual campanha política e o papel que os grandes meios de comunicações brasileiros vem desempenhando.

O primeiro trabalho é O CYBORG DE 2010 e o segundo é: 2006+89+64: Como engarrafar a democracia.

FIQUEM COM OS TEXTOS. COMENTEM DEPOIS.

19 de abril d.
e 2010 às 3:45

O Cyborg de 2010

Eu terminei um post anterior, este aqui, prometendo traçar um paralelo entre Collor e Serra.

Não se trata de um paralelo entre as biografias dos dois.

Nem do que ambos fizeram com o poder que alcançaram.

Trata-se de um paralelo entre a conjuntura política que levou Collor a ser quem foi na campanha de 1989, tema do post anterior, e a conjuntura política em que o ex-governador de São Paulo se lançou candidato, em 2010.

Há fatos sobre os quais existe pouca discordância, quase nenhuma: com Geraldo Alckmin eleito governador de São Paulo — se isso de fato acontecer — e Aécio Neves eleito senador por Minas Gerais em 2010 as opções políticas de Serra serão reduzidas. Ou ganha, ou ganha.

Acrescente a isso a idade do candidato, 68 anos, e o fato de que o presidente Lula pode voltar a concorrer em 2014.

Para Serra — em particular — e para as  forças políticas que se reúnem em torno dele, 2010 é a eleição!

Collor, em 1989, satisfez o desejo de renovação da sociedade brasileira. Terminava o governo transitório de José Sarney, o Brasil vivia um momento de inflação galopante, de estagnação econômica, desemprego e impasse na dívida externa. Quanto sofri com colegas jornalistas correndo atrás das equipes de negociação da dívida no Fundo Monetário Internacional, no Banco Mundial, na sede do Tesouro e na sede do Citibank, na avenida Lexington, em Nova York!

Collor introduziu o marketing político nas campanhas eleitorais (para quem está chegando agora, falo da primeira eleição presidencial brasileira depois do regime militar, em 1989).

Collor tirou proveito do pânico dos empresários com a perspectiva de ver Brizola ou Lula no poder.

Na edição em que narrou a vitória dele, a revista Veja escreveu:

“Quando a campanha presidencial teve início, havia um espectro no horizonte chamado Brizola – a possibilidade de um candidato de esquerda populista (Leonel Brizola) ou de esquerda socialista (Luís Inácio Lula da Silva) acabar levando a sucessão. […]

O anti-Brizola, na verdade, era Fernando Collor, candidato no qual a maioria dos políticos prestava a mesma atenção que dispensa ao Estado do qual ele foi governador, Alagoas. Ao longo dos meses seguintes, Collor iria demonstrar que é o mais espetacular caso de self-made man da política brasileira.  […]

Uma das grandes injustiças cometidas contra Fernando Collor de Mello ao longo de toda a campanha presidencial foi o lançamento da teoria de que ele não passava de um produto de laboratório, uma espécie de Cyborg, construído por grandes empresários para vencer o espectro Brizola. É verdade que, na reta final, qualquer dono de empresa com um faturamento capaz de ser contabilizado na casa dos milhões de dólares fechou com Collor – contra Brizola, no início, contra Lula, mais tarde. […]

Depois da votação de 17 de dezembro, constata-se que, se Collor é um candidato criado em laboratório, era ele próprio quem manipulava todos os instrumentos disponíveis. Foi ele quem confeccionou o discurso contra os marajás. Também é de sua iniciativa a postura de ataques ao presidente José Sarney – a quem acusou de estar cercado de assessores corruptos e até assassinos no Planalto. Também é de Collor a atitude antiesquerda nos últimos dias da campanha no segundo rumo. Saiu dos laboratórios do novo presidente, por fim, a nuvem de mal-estar que acompanhou a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva nos momentos finais da campanha no segundo turno. […]

Entre o Lula triunfal dos grandes comícios da reta final e o candidato abatido na manhã de 17 de dezembro havia uma diferença de peso. Para o candidato do PT, os últimos dias de campanha foram marcados por uma sucessão de dificuldades. Uma delas consistiu no grande golpe baixo da campanha – o depoimento de sua ex-namorada Mirian Cordeiro, que, conforme denúncias de assessores do PRN, embolsou 200 000 cruzados novos para ir ao horário político de Collor denunciar que o concorrente do PT tentara convencê-la a fazer um aborto para impedir o nascimento de uma filha do casal, Lurian, que hoje tem 15 anos de idade.”

Avancemos, pois, até 2010, quando José Serra representa as forças anti-Lula.

Porém, Lula em 2010 não é o José Sarney de 1989.  A popularidade do presidente da República e de seu governo ronda a casa dos 70%.

Vem daí a necessidade de inventar um novo Cyborg:

Cyborg, o Homem de Seis Milhões de Dólares, foi um seriado extremamente popular que passou na TV Globo nos anos 80. O galã Lee Majors era meio homem, meio máquina, daí a referência da revista Veja a Collor, o Cyborg.

Na conjuntura atual, em que uma comparação de resultados com o governo Lula seria altamente prejudicial a Serra, ele e seus assessores de marketing tentam reinventá-lo como o candidato acidental: ele não tem nada a ver com o trânsito de São Paulo, nada a ver com as enchentes de São Paulo, nada a ver com o tiroteio entre as polícias paulistas, nada a ver com as taxas de homicídio, nada a ver com a crise penitenciária, nada a ver com a greve dos professores, nada a ver com a cratera do metrô, nada a ver com José Roberto Arruda, nada a ver com o fato de que será preciso monitorar os ventos no Rodoanel. Quando eles — os ventos, não os motoristas — decidirem andar a mais de 50 km hora, sai de baixo!

Não faltaram condições para que o governador paulista fizesse uma governo revolucionário em São Paulo, que pudesse ser apresentado agora aos eleitores para se contrapor ao projeto político da ex-ministra Dilma. Como escreveu Luís Nassif, aqui:

“Critiquei inúmeras vezes a oportunidade jogada fora por Serra, de não ter mobilizado o estado de São Paulo em torno de um projeto de desenvolvimento, de inovação das empresas. Tinha-se de tudo no estado: grandes empresas, as melhores universidades, os melhores institutos de pesquisa, as melhores redes de atendimento empresarial, o apoio total da mídia, a melhor infra-estrutura urbana, as melhores cidades médias. Se juntasse todos esses atores, Serra poderia ter montado programas inesquecíveis de capacitação da indústria paulista, dos pequenos e médios empreendedores, poderia ter comandado acordos fundamentais, surfado nas novas ideias, feito uma revolução gerencial, mudado a estrutura de secretariado do governo. Enfim, aqui se teria o laboratório ideal para colocar em prática novas novos conceitos. Só que, em todo seu governo, Serra não soube apresentar uma nova ideia sequer.

Quando estourou a crise global, poderia ter saído na frente de Lula, com medidas próprias do Estado, grandes concentrações de empresários e trabalhadores contra a crise, medidas fiscais etc. Levou cinco meses para receber representantes da indústria. Para tomar as primeiras medidas, foi quase um semestre. A indústria de máquinas e equipamentos registrava 40% de queda nas vendas, e a única coisa que o estado fazia era ampliar a substituição tributária. Para serem recebidos pelo governador, empresários praticamente ameaçaram uma mobilização na frente do Palácio, junto com CUT e Força Sindical.”

Na falta de ideias inovadoras e de uma obra impressionante, para além do rodoviarismo malufista, o que faz um candidato que representa mudança em um quadro de crescimento econômico acelerado, recordes de novos empregos e grande satisfação do eleitorado com um presidente que pretende eleger sua sucessora?

Faz de conta que não representa a mudança. Faz de conta que ele, sim, é o pós-Lula, um slogan que tem a vantagem de servir ao mesmo tempo àqueles que não suportam Lula e aos que não votarão em um candidato “contra Lula”.

Serra se apresenta como o “candidato do bem”, slogan logo apropriado por um internauta para fazer piada:

Sem ideias inovadoras e grandes projetos que possa apresentar para se contrapor às realizações do governo Lula, Serra ficará extremamente dependente dos marqueteiros e de sua aliança com a TV Globo, a Veja e a Folha de S. Paulo.

Primeiro, para ter a segurança de que poderá repetir o padrão que marcou campanhas anteriores do PSDB sem ser desmascarado pela grande mídia.

Campanhas como esta, de 2002:

No anúncio, Serra e o PSDB assumem com exclusividade a paternidade de três ideias que no mínimo deveriam dividir com outros partidos, políticos ou profissionais.

O Plano Real, como se sabe, foi implantado no governo do ex-presidente Itamar Franco, como ele mesmo explica, aqui:

Os genéricos, cuja paternidade o ex-ministro da Saúde José Serra assumiu completamente, pertencem também ao falecido deputado Jamil Haddad, do PSB, conforme ele contou à repórter Conceição Lemes, do Viomundo:

“Serra, pai dos genéricos? PSDB, criador dos genéricos? Assumir como deles é um embuste! Se fizerem isso de novo, eu denuncio”, prometeu há menos de um mês a esta repórter o verdadeiro pai dos genéricos, o médico Jamil Haddad, 83 anos, ex-deputado federal, ex-prefeito do Rio Janeiro e ministro da Saúde de outubro de 1992 a agosto de1993, no governo Itamar Franco. “Em política, a traição é uma norma. Só não se sabe a data.”

Leia o post completo clicando aqui.

E o seguro-desemprego teve sua gênese, na verdade, no governo do ex-presidente José Sarney, do PMDB, em 1986, conforme afirmou o ex-ministro do Trabalho Almir Pazzianotto à revista Veja, durante a campanha eleitoral de 2002:

“Em outdoors, José Serra tem se apresentado como o responsável pelo seguro-desemprego. Não é verdade. “Se o seguro-desemprego tem um pai, é Sarney”, afirmou o ex-ministro do Trabalho de José Sarney Almir Pazzianotto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho. O seguro-desemprego foi criado em 1986. Coube a Serra, durante a elaboração da nova Constituição, dois anos depois, criar uma fonte de financiamento estável para o benefício. “O Boeing 747 é muito melhor que o 14 Bis, mas quem inventou o avião foi Santos Dumont”, diz Pazzianotto.”

Mas não foi só. Como mostrou a incansável Conceição Lemes, a repórter de Saúde mais premiada do Brasil, quando a gripe suína ameaçava se transformar em uma hecatombe mundial, o ex-governador viu uma oportunidade de marketing que, quem sabe, ele poderia explorar na campanha eleitoral de 2010 — e tentou se apropriar da paternidade das vacinas:

“Lendo todo o material, distribuído oficialmente, parece que o Estado de São Paulo, com o governador José Serra à frente: 1. arcará com os custos vacinas contra a gripe suína no Brasil; 2. distribuirá as vacinas via Ministério da Saúde (MS); 3. São Paulo será o primeiro a dispor da vacina no país; 4. São Paulo saiu na frente do restante do Brasil, inclusive do próprio Ministério da Saúde.”

Leia como nada disso era verdade, clicando aqui.

Mas o caso clássico, também denunciado pela Conceição, foi a apropriação, por Serra e pelo PSDB,  do projeto de combate à AIDS no Brasil, que surgiu no governo Sarney, passou pelo governo Collor e chegou ao de Fernando Henrique Cardoso. Há consenso de que a bióloga Lair Guerra foi a grande batalhadora do projeto, conforme atestou o ex-ministro da Saúde Adib Jatene, que precedeu Serra no cargo:

“A eficiência com que Lair comandou o setor trouxe as primeiras perspectivas otimistas sobre o controle da doença”, observa Jatene. “Foi sua capacidade de propor, sua coragem de defender e sua eficiência em executar que nos colocaram na direção correta, consolidada por tantos que, com competência e dedicação,mantiveram as ações em crescendo, garantindo, em área tão sensível, o reconhecimento de uma liderança que partiu de Lair.”

Leia o texto completo clicando aqui.

Só a certeza da impunidade diante da mídia permitiria ao PSDB, em 2010, começar sua mobilização com um vídeo em que, mais uma vez, a “revolução” da saúde se baseia num tripé do qual fazem parte os genéricos e o combate à AIDS.

O texto agora fala que Serra “implantou” projetos neste sentido durante sua passagem pelo ministério da Saúde, o que é factualmente correto (curiosamente, a passagem de Serra pelo Ministério do Planejamento nunca é mencionada), mas nessa área o PSDB está longe de ter promovido uma “revolução”.

Como mostramos acima, foram ações que tiveram origem muito antes, que envolveram mais de um partido, outros profissionais de saúde e políticos. Mas o PSDB segue adiante, com a certeza de que escapará ileso de qualquer cerco midiático:

Espero ter estabelecido, com razoável credibilidade, que existe aí um padrão.

Serra e o PSDB, que não assumem seus “erros”, assumem como deles ideias e projetos alheios. Isso só é possível porque contam com a, vamos dizer, “solidariedade’” da grande mídia.

A que outro partido ou político seria permitido fazer o mesmo sem uma barragem de críticas da TV Globo, da Folha e da Veja? Seria um escândalo!

Para os que não ficaram convencidos, vai aí mais um exemplo que vem de cima.

O presidente do PSDB, Sergio Guerra, aquele que em entrevista de alcance nacional à revista Veja prometeu acabar com o PAC, em âmbito regional tirou casquinha em campanha das obras do PAC (BR-408 e Transnordestina, duas obras federais), sem mencionar que eram obras do PAC:

O que me leva à capa da Veja desta semana, a versão brasileira do Yes We Can:

O que me preocupa menos aqui é o suposto plágio. Como dizia Chacrinha, sobre a televisão — e é disso que estamos falando, não de política ou de projetos políticos, mas de uma campanha baseada estritamente na televisão e no marketing — “nada se cria, tudo se copia”.

O que me preocupa é que essa imagem e o slogan “Serra é do bem” (que acompanha o “pode mais” na propaganda de Serra para 2010) só fazem sentido, numa campanha eleitoral, se se pretende apresentar alguém como sendo “do mal”.

Quem seria?

Tema do post final, quando finalmente falarei da soma 2002 + 1989 + 1964.

PS: Deve ser mera coincidência, isso no sábado:

Seguido disso:

E mais isso, na noite de domingo, horário nobre:

19 de abril de 2010 às 22:43

2006+89+64: Como engarrafar a democracia

O perigo vermelho*

por Luiz Carlos Azenha

Este é o terceiro e último post da série que decidi escrever a respeito da conjuntura midiática-político-eleitoral.

No primeiro post falei sobre a campanha de 1989, que muitos jovens brasileiros não viveram pessoalmente. Está aqui. Nele, relembrei por alto o clima de guerra que permitiu a Fernando Collor, primeiro como anti-Brizola, depois como anti-Lula, chegar ao Palácio do Planalto nas primeiras eleições presidenciais diretas depois da redemocratização.

No segundo post, tracei paralelos entre 1989 e 2010. Argumentei que a conjuntura de hoje incentiva oposição a repetir táticas do passado e que a tentação de mentir, deturpar e se apropriar de ideias alheias é grande, especialmente pelo fato de que ela conta com a cobertura favorável da TV Globo, Veja e Folha de S. Paulo, sejam quais forem as circunstâncias.

Finalmente, prometi especular sobre se a soma de 2006 + 1989 + 1964 implicaria em golpe para interromper o governo da ex-ministra Dilma Rousseff, se ela vencer a eleição.

Minha resposta curta: Não!

Minha resposta longa:

Como meu colega Rodrigo Vianna argumentou brilhantemente, em um post não tão novo assim, o PSD sempre foi o fiel da balança na política brasileira. O Brasil sempre foi para o lado que o PSD escolheu. Grosseiramente, podemos dizer que o PSD foi o centro e que o centro está hoje majoritariamente no PMDB. A aliança do PSD (PMDB) com Dilma, portanto, é garantia de que, se eleita, ela terá uma coalizão sólida para governar.

Ou seja, se o Instituto Millenium, aquele que organizou um convescote para discutir as ameaças à democracia brasileira, perder em 2010, vai promover o golpe?

Para decepcão de muitos na esquerda brasileira, que viveram sob o regime militar, sofreram os traumas da “ocupação interna” e ainda raciocinam politicamente dentro do antigo molde, a resposta é não.

A resposta pode não fazer sentido para aqueles que consideram o governo Lula um governo genuinamente de esquerda. Pessoalmente, diria que é um governo de centro, que adota algumas ideias progressistas, mas que está plenamente enquadrado na modernização conservadora que é tradição da política brasileira.

O golpe não sai, entre outras coisas, porque o capital internacional odeia instabilidade — e na última vez que andei pelas ruas de São Paulo vi com meus próprios olhos os anúncios do McDonald’s, do Santander, do Citibank e outros. O capital internacional está entrando, não está saindo do Brasil.

Ora, se o Instituto Millenium não vai dar o golpe, qual seria a função dele?

Aqui, valho-me de minha experiência pessoal como correspondente nos Estados Unidos, onde vivi quase 20 anos. Já tinha vivido lá antes, nos anos 70, como estudante em um intercâmbio da American Field Service (AFS), hospedado por uma família de Glen Burnie, subúrbio de Baltimore, no glorioso estado de Maryland.

Na foto, à esquerda, insuspeita família norte-americana que abrigou elemento criptocomunista; à direita, registro do plano diabólico encetado na Old Mill Sr. High School: servir feijoada aos colegas para provocar indigestão nos imperialistas.

Depois que voltei, durante os acalorados debates políticos que travava com meu pai, ele jocosamente dizia que eu tinha bebido a “água negra do imperialismo”, que é como a Coca-Cola chegou a ser chamada então.

Mas, voltando à minha vida de gringo, pude acompanhar de perto o fortalecimento do movimento neoconservador nos Estados Unidos. Ao contrário do que muitos imaginam, os neocons não formam um grupo homogêneo, hierarquizado e que se reúne semanalmente para tramar o fim do mundo. A gênese de uma das vertentes do movimento se deu lá atrás, nos anos 50, com a formação do Committee on the Present Danger (CPD), um lobby que desde os seus primórdios caçava inimigos internos e externos com o objetivo de justificar: 1) gastos militares; 2) combater as correntes isolacionistas da política americana, existentes nos dois maiores partidos.

A primeira vitória expressiva dos neocons se deu com a formação do chamado Team B, nos anos 70: um grupo que faria uma análise “independente” da ameaça soviética. O grupo pregava uma escalada armamentista e acusava funcionários de carreira do governo de serem “moles” com os comunistas (usando a técnica tradicional dos neocons, o assassinato de reputação).

Uma análise retrospectiva mostra que o relatório produzido pelo grupo continha projeções descabidas, mas que serviram perfeitamente à causa: convencer parcelas crescentes da opinião pública de que os Estados Unidos não deveriam buscar acomodação com os soviéticos, mas tinham a obrigação moral de “espalhar a democracia” (menos para as ditaduras aliadas dos Estados Unidos, que ninguém é de ferro).

Foi um avanço contínuo o dos neocons, que desaguou no controle quase completo do Partido Republicano e da máquina de governo durante o governo de Bush Jr. Grosseiramente, podemos dizer que eles trabalharam pela privatização da política externa e das próprias guerras que pregaram, ora contra os comunistas, ora contra Saddam Hussein, ora contra os islamofascistas, seja lá o que isso for. O importante é criar um inimigo, para justicar a destruição dele.

Abrigados em um emaranhado de think-tanks financiados pelos capitães da indústria, os neocons ocuparam espaço na mídia e disseminaram suas ideias através de seminários e grupos de trabalho paralelos à burocracia oficial. Pode-se dizer que nunca tão poucos,  sem um voto sequer, conseguiram tanta influência sobre políticas públicas.

O que nos traz de volta a esse arremedo neocon tardio que é o Instituto Millenium, cujo objetivo central é atender aos interesses da minoria com “complexo de maioria”. Quem está vivo e percebe o que se passa à sua volta perceberá quantas vitórias os neocons brasileiros já obtiveram nos confrontos com o governo Lula através da formulação de crises midiáticas.

Na campanha eleitoral, o instituto é apenas a expressão mais vísivel de uma elite aturdida ao mesmo pelo desatamento de forças políticas que não controla, pela competição capitalista que ela nunca enfrentou e pelo capital internacional que não distingue Marinho de Xijuan, Civita de Suarez.

O Instituto Millenium é um lobby de luxo, com seus próprios intelectuais orgânicos, prontos a formular as teorias necessárias à preservação dos bons negócios.

Uma versão moderna e elegante da extorsão praticada pelos delegados da polícia política, que durante o regime militar brasileiro assustavam o empresariado com o perigo vermelho a fim de ganhar algum.

Se a ex-ministra Dilma Rousseff for eleita, ele se prestará não a um grande golpe, como o de 1964. Serão pequenos golpes, diários, em defesa de grandes negócios. Ah, sim, tudo em defesa da “democracia”, ainda que o objetivo difuso seja manter intacta  esta nossa “democracia entre amigos”.

* O livro que ilustra este post pertenceu ao seo Azenha. Quando menino, eu me assustava quando homens armados invadiam minha casa em Bauru, em busca de literatura subversiva. Meu pai nos tranquilizava: “Eles vieram apenas cumprir a cota”, o que implicava em levar embora todos os livros de capa vermelha, independentemente do conteúdo. Coisas do Brasil.

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